terça-feira, 28 de março de 2017

19 de Março, a hegemonia lulista e a esquerda sacerdotal

Para além do teor estético e do simbolismo geográfico, a inauguração popular da transposição do Rio São Francisco no dia 19 de março foi, provavelmente, um dos eventos políticos mais importantes para a esquerda nos últimos meses. Raros são os momentos de simbiose nos quais o partido sente o povo e extasia-se com ele como se nele em casa estivesse. Não é surpreendente que, em editorial do dia 21, o Estadão tenha afirmado que o demagogo e populista “Lula de sempre” estava de volta ao palanque. Tampouco é que setores da esquerda, receosos com o protagonismo do ex-presidente, tenham recuperado o discurso da impossibilidade do lulismo e da necessidade de reorganização de um autêntico projeto anti-establishment para os próximos anos. Desprovida de suficiente franqueza para admitir que as condições para tal empreitada são mais verdolengas que os sentimentos fascistas que atualmente emergem do povo, esses setores da esquerda revelam sua face mais sacerdotal.

Me refiro à esquerda sacerdotal como aquela que se julga depositária de identidades sagradas e que concebe a revolução como um combinado de princípios transcendentes à dialética de vícios e virtudes da vida cotidiana. Na sua versão anticapitalista, essa esquerda abdica de justificar a origem de possíveis impulsos revolucionários dentro de um sistema de expectativas capitalisticamente constituído e não procura adequar suas reivindicações ao quadro social vigente. Contenta-se em argumentar a necessidade de um novo destino sem mostrar a travessia. Desse modo, ao evocar a “voz das ruas” e dar as costas para as empiricamente verificáveis ambições conservadoras da classe trabalhadora, para sua vulnerabilidade ao fascismo e seu crescente desprezo por algumas conquistas civilizatórias, a esquerda sacerdotal, como todo devoto, rebaixa a realidade e se refugia na celestialidade. Só então pode encontrar-se com a consciência de classe, com o desejo revolucionário e, de um modo geral, com a ilusão da grande política em tempos de retrocedência.

Tão distantes os sacerdotes estão do povo que tendem a conceber a hegemonia lulista como o mais chulo populismo ou como uma variação colorida do modelo capitalista neoliberal, mas nunca como uma legítima representação de parcelas historicamente excluídas do percurso capitalista no Brasil. Para manter sua áurea angelical, a esquerda sacerdotal abandona os pobres à contingência a ponto de expor sob os holofotes da esfera pública o conjunto de conquistas sociais operadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores como um opioide qualquer cuja analgesia não paga a pena da desmobilização popular e do déficit democrático daí resultante – como se a reorganização institucional promovida em torno dos programas sociais não resultasse, por outro lado, num superávit democrático. Entretanto, como os emissários da sagrada revolução tampouco nos presenteiam com uma alternativa institucional factível transmitem a sensação de que pretendem, como diria Marx, derrubar “as colunas de sustentação da sociedade burguesa a cabeçadas”.

Também por isso, a esquerda sacerdotal só pode sobreviver politicamente como um organismo parasitário, que agarra-se a projetos alheios e dali extrai seu conteúdo vital: discursos críticos, quase poéticos mas sem viabilidade nenhuma. Contribui bastante para essa inviabilidade dois fatores. Primeiro, que suas ideias de transformação radical da ordem social são dependentes de uma fração da classe trabalhadora cuja expectativa é, justamente, a manutenção da ordem; segundo, que quaisquer propostas de transformação institucional depende de um arranjo parlamentar cuja existência só é possível mediante um pacto minimamente conservador. Assim, enquanto promete a oitava benção do Apocalipse, a esquerda sacerdotal se mostra incapaz de encarar humildemente a dureza da realpolitik e a dureza de sua desaprovação popular – de tal modo que, nos raros momentos em que olha para si, prefere reinventar a utopia pela milésima vez em lugar de reinventar-se politicamente. Por isso, tão cedo não será recebida de braços abertos pelo povo como Lula foi na Paraíba.

sexta-feira, 17 de março de 2017

É Lula ou nada


Nem a esperança quase fantasiosa que caracteriza o pensamento de alguns setores da esquerda é capaz de ignorar o fato de que vivemos, como disse Raduan Nassar, tempos sombrios. Nos falta tudo, excetuando a boa intenção, para empreender qualquer transformação mais acelerada da estrutura social brasileira. A começar pela revelação de que a ideia da estabilidade democrática e da rigidez institucional que, durante os últimos 20 anos, tanto nos assoberbou e nos diferenciou de outros países latino-americanos mostra-se tão falsa quanto um abraço de tamanduá. E quando soma-se a isso a vertiginosa vulnerabilidade do povo às ideias fascistas e o completo desinteresse pelas conquistas civilizatórias dos últimos dois séculos, quase não sobra fôlego para lembrar que estamos diante de um projeto excepcionalmente organizado de sucateamento dos serviços públicos no Brasil. 

Do ponto de vista político, tanto o impeachment quanto os desdobramentos econômicos da segunda etapa do golpe mostraram que a “voz das ruas” é um sussurro perto dos berros da institucionalidade. Menos pela fragilidade organizativa dos movimentos sociais e mais pelo desinteresse do brasileiro médio em eventos políticos cujos potenciais de comoção nacional são restritos. Fortemente influenciada pela imprensa, que ao desistir do jornalismo em nome do entretenimento agudiza a imbecilização das pessoas, a opinião pública silencia em relação às contradições do establishment. A surpreendente parcimônia só parece interrompida quando prejudicadas as reivindicações pontuais da vida cotidiana – como se viu nas manifestações contra a reforma da previdência. Por outro lado, curiosa e contraditoriamente, o eleitorado parece amadurecer a impressão de que tais reivindicações pontuais poderiam ser atendidas por meio de um projeto neoliberal e não mais pela “benevolência” social.

Com isso, dois elementos começam a se misturar perigosamente no Brasil. Por um lado, a permanência daquele sentimento de fracasso da intervenção estatal ameaça a manutenção de um Estado minimamente organizado em torno de políticas sociais, faz coro à política de austeridade do atual governo e fortalece a chamada nova direita – cuja plataforma econômica foi vitoriosa nas eleições de 2016. Por outro lado, nessas fissuras democráticas e na medida em que a esquerda se mostra incapaz de superar o abstracionismo humanista e oferecer soluções práticas para questões relativas à segurança e ao desemprego, se edifica um [res]sentimento anti-democrático e o cenário político se abre para plataformas abertamente fascistas.

Essa dinâmica é potencialmente trágica, pois desgostosa com a morosidade tucana uma parcela importante do eleitorado conservador manifesta o interesse de aventurar-se por paisagens mais medonhas. Não por acaso, o segundo candidato mais lembrado pelo eleitorado brasileiro na pesquisa espontânea é Jair Bolsonaro – com três vezes mais intenções de voto que os principais candidatos à presidência em 2014. A tragédia aqui é que, como na metáfora lacaniana, o eleitorado reconheça num projeto fascista sua imagem refletida e que esse procedimento de identificação se complete com uma surpresa ao estilo Donald Trump. O fato é que Bolsonaro, mais do que qualquer outra figura pública, é capaz de extrair a exata reivindicação que emerge das profundezas mais obscuras do sentimento popular.

Nesse contexto, as críticas à hegemonia lulista parecem ignorar o fato de que, para além de Lula, não há saída imediata na política. Pelo contrário, a retomada desse ciclo, com lentas reformas e acomodações de interesses, é a pré-condição mínima para qualquer projeto futuro na esquerda. Se o lulismo não é um fim, fica mais do que evidente que ele é, no mínimo, um meio - um meio para que a esquerda possa prosseguir. Líder em todos os cenários de todas as pesquisas, atacado abertamente pela imprensa e pelo judiciário, Lula é o único nome da centro-esquerda capaz de, por um lado, dialogar diretamente com o povo e, por outro, retomar a estabilidade democrática com uma condução política mais progressista. Ou mais do que isso, ignorado o afresco utópico de uma sociedade politizada, Lula é a única chance de garantir que, ao menos, não saiamos das sombras para ingressar na mais completa tenebrosidade.

terça-feira, 14 de março de 2017

2017 e o flerte com o fascismo


Desde o segundo turno da última eleição presidencial ficou evidente que as coisas estavam desorganizadas. Convergindo com a emergência daquele confusionismo político de junho de 2013 e do moralismo requentado com as investigações sobre a Petrobrás, a direita renasceu das cinzas e tirou do armário o orgulho do discurso conservador. Daí para o escancaramento do racismo, da homofobia e do preconceito contra os nordestinos foi um passo – muito embora, por outro lado, tenham se consolidado posições legítimas em defesa do moribundo livre-mercado. A esquerda, por sua vez, perdeu de vez o PSB (que, com o apoio ao PSDB no segundo turno, engatinhava para se tornar a aberração política que é hoje) e viu o crescimento de um discurso asfixiado pelo maldito pós-modernismo – que ressuscitou em nós uma desordem teórica e política, cujo núcleo central é o elogio ao irracional e à ausência de verdade.

Discussões epistemológicas à parte, a esquerda nos últimos dois anos vive um período desfavorável em, no mínimo, três aspectos. Primeiro porque perdeu a ligação com as reivindicações populares, algo que Lula fez como ninguém – e aqui não se trata de reivindicações revolucionárias de um sujeito coletivo ideal, mas reivindicações que estão enraizadas na vida cotidiana do povo, especialmente aquelas ligadas ao consumo, ao bem-estar e à ambição profissional. Segundo porque perdeu o horizonte normativo e aquela característica antecipatória capaz de idealizar uma forma de vida que merece ser vivida e pela qual vale a pena lutar. Terceiro, menos saturada filosoficamente mas igualmente perigosa, é o crescente namorisco com sentimentos fascistas – como nos casos recentes da soltura do goleiro Bruno e do jantar de Chico Alencar com Ricardo Noblat. 

O caso de Chico Alencar é espantoso. Não é preciso repassar o conteúdo da biografia de Alencar, basta lembrar que o deputado é um dos principais responsáveis por publicizar os conchavos realizados no congresso nacional e um dos poucos deputados que pode se dar ao luxo de não se mover um milímetro de sua régua de princípios. Chico Alencar se posicionou abertamente contra o impeachment e foi protagonista na cassação de Eduardo Cunha. Apesar de tudo, na semana passada ele cometeu o “crime” de ir a um jantar organizado por Ricardo Noblat – conhecido jornalista reacionário, golpista e anti-pestista. Para piorar, lá encontrou a cúpula do golpe e comeu e brincou entre eles como se entre amigos estivesse. No outro dia, impulsionada por uma manchete maldosa da Folha de São Paulo (“Chico Alencar beija a mão de Aécio e o diferencia de Renan e Jucá”), a reação de setores da esquerda foi quase unânime: Chico Alencar se dobra ao PSDB. 

A conclusão, bem como os elementos da medíocre narrativa que atribui a esse patrimônio da esquerda brasileira uma suposta conivência com os golpistas, só pode florescer num estágio patológico no qual a convivência respeitosa entre adversários políticos é vista como abominável. Chico Alencar, por sua vez, ao gravar um vídeo no qual admite o “erro” de ter ido ao referido jantar perdeu a oportunidade de dar uma lição de civilidade e acabou se curvando a esses sentimentos autoritários que fazem reviver as “confissões voluntárias” às quais eram submetidos os adversários de Stálin. Ao reiterar que não pretende passar a imagem de estar “convivendo com os nossos adversários”, Alencar fomenta uma encíclica purista segundo a qual o adversário é inimigo e quanto mais distância melhor. É a encíclica da bolha. 

O segundo caso é mais grave. Se o primeiro pode ser considerado fruto de um purismo aprisionador (e, portanto, a má vontade com a convivência democrática emerge da ingenuidade), o segundo beira a traição de princípios. Também não é necessário repassar a biografia de Bruno, basta dizer que ele atuou como goleiro do Flamengo e por lá se envolveu em alguns problemas com a diretoria do clube e com a polícia até que em 2013 foi condenado a 22 anos de reclusão por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver no caso Eliza Samudio. A defesa apelou contra a sentença em 2013 e, quatro anos depois, essa apelação ainda não foi julgada. Já sabemos o que ocorreu, condenamos moral e juridicamente o sujeito. O crime não poderia ser mais monstruoso. No entanto, (a) enquanto a apelação da defesa não for julgada ele é inocente e (b) mesmo condenado, porque estaríamos atacando o processo de ressocialização do indivíduo? 

No segundo caso, a esquerda está diante de uma situação na qual precisa optar entre o direito e a vontade. Ou cumpre-se o direito conforme as conquistas civilizatórias dos últimos dois séculos, inclusive no que tange à presunção de inocência e a ressocialização, ou abraça-se a vontade autoritária do fascismo – segundo a qual o direito deve se curvar às paixões do senso comum. Certamente, esse namorisco incoerente não vai dar boa coisa.